Estudando a Cabala Hermética

Por que estudar não apenas as Sephiroth, mas também as Qliphoth?

6/2/20264 min read

A série The Boys com seu enredo que ia da mais sangrenta carnificina até a comédia mais inusitada trouxe um assunto muito interessante: o lado oculto da personalidade, ou melhor, a 'sombra' que todos pensam que dominam ou conseguem ignorar.

Os anti-heróis da série são inversões (ou perversões?) dos heróis que conhecemos desde as tradicionais histórias em quadrinhos ou nos filmes posteriores: o Profundo é um inseguro Aquaman, a Maeve, uma depressiva Mulher Maravilha e o Super-Homem é distorcido no tirânico psicopata Homelander ou Capitão Pátria, o personagem mais icônico da série.

O Super-Homem sempre foi meu herói favorito. Um alienígena com poderes sobre-humanos criado por pais maravilhosos na Terra que o acolheram em segredo. Clark Kent cresceu amando a Humanidade, pois foi criado por estes pais que o amaram. Além disto, recebeu toda a sabedoria de seu planeta de origem, Kripton, através das memórias de seu pai biológico, Jor-El. Tornou-se um protetor e salvador da Humanidade, graças aos poderes absorvidos do Sol Amarelo.

A trajetória da sua réplica sombria é bem diferente. Criado em laboratório, o Capitão Pátria só conheceu seu 'pai' biológico, Soldier Boy, um Capitão América distorcido, quando foi descongelado após dezenas de anos. Soldier Boy o desprezava, o chamava de fraco e o ridicularizava. Homelander tornou-se um ególatra tirânico, carente e tão inseguro que até os memes o ofendiam. Queria que a Humanidade o amasse à força e, aqueles que não concordassem com suas imposições e desejos eram simplesmente eliminados. Quanto mais se sentia rejeitado, mais violento se tornava.

*Quando um autor na plenitude de sua inspiração e visão supramental cria uma história, ele está manifestando arquétipos universais sob o entendimento dele ou como parte de sua personalidade em interação com o mundo. A história de um herói se refere à realização máxima do potencial humano, a supremacia de seu Self em detrimento do seu Ego. A vitória em seus desafios depende da força da sua autoconfiança. Os heróis são solares e pertencem à Tiphareth, Sephirah central da Árvore da Vida condizente com a realização máxima da Vontade individual. O Sol rege Tiphareth e orienta o herói ​em sua saga até que se torn​e um rei magnânimo e amoroso.

No entanto, nem todos têm poderes alienígenas, são criados por pais maravilhosos e recebem ensinamentos transcendentais. Na realidade, nosso Sol pessoal, muitas vezes, torna-se obscurecido por vícios, pelos problemas familiares, pelo trabalho nada gratificante e pela sociedade medíocre. Isto faz com que tenhamos que lidar com mágoas e inseguranças que podem trazer à tona nosso Homelander pessoal. Em outras palavras, a maioria de nós inicia o percurso heróico enfrentando a escuridão mais profunda em Thagirion, Qlipha oculta em Tiphareth.

Costuma-se estudar a Cabala apenas sob a Luz das Sephiroth e dos Caminhos de Thoth, esquecendo-se do seu espelho oculto criado por Lúcifer, que queria despertar em nós, humanos, poderes divinos, assim como Prometeu trouxe o fogo dos deuses do Olimpo para a Humanidade. A partir do reconhecimento do “mal”, dos vícios, medos e outros aspectos sombrios do ser humano, pode-se alcançar o poder de uma Estrela ou o livre-arbítrio, sem se submeter a uma autoridade determinista. Os conhecimentos Herméticos como a Astrologia, a Alquimia e a Magia têm os recursos necessários para despertar a divindade dentro de nós por meio do autoconhecimento profundo, de práticas ritualísticas e da visualização ativa. Claro que estes conhecimentos são tratados como algum tipo de culto ao diabo ou, simplesmente, como entretenimento e fantasia. Afinal, se vivemos em uma sociedade que acredita estar sendo iluminada pela Luz celestial de Tiphareth mas, na verdade, ainda está perdida na caverna de Thagirion e sendo manipulada por seus demônios, tudo aquilo que mostra um caminho diferente, pouco conhecido e complexo, não é levado a sério. Muitos classificam as Ciências Espirituais acima no mesmo patamar da vidência apocalíptica ou dos gurus de ocasião das redes sociais. No entanto, são conhecimentos cada vez mais necessários em um mundo polarizado e manipulado pelos governos e seus asseclas. O Mensageiro da Luz, Lúcifer, é tido como uma entidade malévola. No entanto, é exatamente o contrário. Ele representa o despertar do Conhecimento no ser humano, que o fez reconhecer tanto seu livre-arbítrio quanto suas vulnerabilidades.

Lidar com os demônios pessoais é o primeiro passo para a saída de Thagirion. Se olharmos para nossa história de vida e reconhecermos nossos próprios defeitos e fraquezas, percebemos como podemos melhorar ou evoluir. Sem este reconhecimento, podemos dar ensejo ao nosso Homelander se manifestar com sua fúria autodestrutiva e seus recalques, ou seja, deixamos nossos demônios no comando de nossa vida sem perceber. Mas, o caminho evolutivo da Cabala Hermética não é um atalho, mas um árduo trabalho disciplinador que cada um de nós devemos percorrer, reconhecer cada arquétipo, cada arcano e seu referencial em nossa essência ou personalidade, a fim de assimilar o poder 'demoníaco' e transformá-lo no dragão ou na serpente Kundalini. Portanto, não basta meditar, fazer yoga ou viver como um monge budista longe dos percalços da existência. O fortalecimento do Ego e sua transformação no Eu Sou, ou em nosso herói solar, deve cumprir várias etapas, com seus túneis e caminhos.

Clark Kent ou Kal-El teve que se recolher em sua Fortaleza da Solidão no Pólo Norte para estudo e preparação. Homelander não se preocupava nem um pouco com qualquer aprendizado, mas apenas com sua imagem e poder sobre os demais. Esta superficialidade o enfraqueceu ainda mais, enquanto o recolhimento e humildade de Kal-El o tornou, além de poderoso, amado e equilibrado. Assumir o controle da própria vida exige silêncio, disciplina e lucidez para não agir inconscientemente dominado pelos desejos, traumas e vitimismo. Em suma, trata-se de trazer o inconsciente para o consciente sob o processo Ora et Labora.